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O quarto planeta do Sistema Solar e suas luas são tema de fascínio para a Humanidade. Tal deslumbre remonta aos tempos mitológicos, na antiga Grécia, onde Marte era Ares e considerado deus da guerra. Conforme Hesíodo, o planeta era filho de Júpiter e de Juno. Juno, invejosa de ter Júpiter tirado Minerva de seu cérebro, quis imitar a façanha e produzir um filho sem o concurso de seu esposo ou de qualquer outro homem. Resolveu dirigir-se ao Oriente, a fim de aí encontrar os meios propícios Mitologia: para tal. Fatigada do caminho, sentou-se ao pé do templo da deusa Flora, que lhe perguntou a causa da sua viagem. A deusa, ouvindo seu desejo, mostrou-lhe uma flor maravilhosa, a qual, pelo simples contato, fecundava qualquer mulher, sem o auxílio de homens. Foi assim que surgia a luz à Marte, que foi confiado a Dáctilos, árbitro dos combates.

Ainda de acordo com a mitologia grega, Marte teve inúmeras amantes, mas amava sobretudo Vênus, esposa de Vulcano, que os apanhou em pleno adultério. E teve inúmeros filhos. É o deus da guerra feroz, sangrenta e brutal, ao passo que Minerva é a deusa da guerra estratégica, hábil e inteligente. Os gregos não o veneravam e dizem ser odiado pelas próprias divindades. Os romanos, porém, prestaram-lhe culto excepcional, chegando a ser um deus nacional. Era o pai de Rômulo e Remo, ligados a fundação de Roma. Dizem que sua voz era mais estridente que a de dez mil homens. Os únicos imortais que apreciavam sua companhia eram Éris, a deusa da discórdia, e a amorosa Afrodite, que teve três filhos seus, entre os quais Phobos (medo) e Deimos (terror). Esta ligação também produziu um dos maiores escândalos do Monte Olimpo quando Hefesto, o marido traído por Afrodite, os surpreendeu juntos e os prendeu numa fina rede de bronze, de modo a que todos os deuses pudessem rir de tão obsceno espetáculo. Alguns autores afirmam que as formidáveis Amazonas eram filhas de Ares.

Ares, o deus da guerra.

Em Roma Ares é identificado como Marte, o grande deus dos romanos. O seu culto suplantava o de Júpiter. Inicialmente era considerado uma divindade essencialmente agrícola "Marte Gradivo", Deus da vegetação e da força geradora da natureza, e sob o nome de Silvano presidia a prosperidade dos rebanhos. Mais tarde, possivelmente por identificarem a idéia de força cega, contida na tempestade, com a violência das batalhas, os romanos fizeram de Marte um deus guerreiro, protetor das batalhas. Essa evolução da divindade, que passou de agrícola para guerreira, coincide com a própria evolução da história romana. Antes de transformar-se em soldado, o cidadão de Roma foi um simples camponês. Assim na época das conquistas, os romanos colocaram o deus da guerra, acima de qualquer outra divindade, não planejavam nada, sem antes consulta-lo. Marte, teve um romance com a vestal Réia Silvia do qual nasceram Rômulo e Remo (fundadores de Roma). Embora considerassem Marte um deus cruel e violento, os romanos admiravam Marte, que o descreviam como forte e honrado. Ao esculpirem o deus, os artistas antigos procuravam representar toda a beleza, a força e a coragem do deus da guerra. Diferente de Ares, Marte defendia os romanos contra os ataques estrangeiros e protegia especialmente os guerreiros corajosos. As representações são cópias das obras realizadas por artistas gregos. O tipo originalmente romano apresentava um deus barbudo e armado. Mas as pinturas, mosaicos e moedas romanas reproduzem a mesma imagem do jovem ares grego. Dois aspectos do temperamento de Marte constituía assunto favorito para os artistas: sua excepcional coragem de guerreiro e seu intenso ardor amoroso. A companheira inseparável de Marte é Bellona (Deusa da guerra romana, a Enyo dos gregos) sua filha, sua esposa. Como ele, ela também foi bastante cultuada. Possuía muitos e célebres templos em Roma. Poema mês de março de Ovídio (43 A.C. 18D.C) invoca-o: Depostos um momento escudo e lança, solta do elmo como luzidia, baixa a meus rogos, belicoso Marte. Pasmas de que um poeta a Marte invoque; De Marte se diz março e março eu conto.

Ares é normalmente retratado como um instigador da violência, um amante intempestivo e passional, e um amigo inescrupuloso.

Ares (grego) : é o deus da guerra. Filho de Zeus e Hera, irmão de Eris (a deusa da discórdia), era deus das guerras sangrentas, odiado pelos outros deuses. Ares era amante de Afrodite. Ao saber que Afrodite favorecia o belo mortal Adonis. Ares, enfurecido, se transformou em um porco selvagem e o matou enquanto caçava. É o deus do esforço, coragem, vigor, tenacidade, negócios, criatividade e perseverança.

Marte (romano) : O deus Marte dos romanos era o deus da agricultura antes de seu nome se ligar ao deus Ares dos gregos. Marte. É praticamente a transposição latina do Ares helénico e um dos deuses romanos sobre quem permanecem mais controversas as interpretações mitológicas. É certo que ele é o deus da Guerra: os colégios de sacerdotes sálios invocavam-no batendo nos escudos e Augusto mandou erguer um templo em sua honra concedendo-lhe o sobrenome de Ultor (o Vingador). Entretanto, a influência que a figura de Ares exerce sobre Marte não deve apagar a caráter muito mais complexo do primitivo Marte, venerado muito particularmente pelos Sabinos e pelos Oscos. Longe de ser um deus da Destruição, Marte protegia a vegetação e assegurava o seu desenvolvimento. Durante o mês que tem o seu nome, altura em que se manifesta a eclosão dos primeiros ramos e das primeiras flores, era-lhe consagrada uma festa. Os mitógrafos contemporâneos tentaram fazer uma síntese plausível dos dois atributos do deus: a guerra e a prosperidade. Mostraram que as festas de Marte se desenrolam na altura em que as armadas abandonam o repouso e retomam os combates. Marte seria então, a figura simbólica do despertar da força e do vigor, tanto na natureza como no coração dos guerreiros.

Nergal (Deus da guerra), na Caldéia.

Harmakhis (em virtude do seu movimento retrógado) e Hartesch (estrela vermelha), no Egito antigo.

Zalbatanu (estrela mortífera), na Babilônia.

Angaraka (carvão ardente) e Lohitanga (corpo vermelho), na Índia.

Pifoedus (cor de fogo), na Grécia antiga.

Young-hono (a luz vacilante) e Tehi-Sing (o planeta vermelho), na China.

O nome do mês março se origina de Marte.

Cairo, a capital do Egito, é escrita em árabe como El Kaher, que significa neste mesmo idioma o planeta Marte.

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Percival Lowell.

A história de Marte foi decisivamente impulsionada para a ribalta mundial em 1.877 quando, o astrônomo Giovanni Schiaparelli, com instrumentos de observação rudimentares, afirmou ter observado faixas escuras na superfície de Marte, os "canalis". Embora o canali no italiano significasse "canal", sem a implicação de ser uma característica artificial, a palavra foi traduzida para o inglês como "canal". Esta observação foi efetuada num período em que Marte se encontrava mais próximo da Terra, tendo observado naquele planeta um complicado sistema de linhas retas simples e duplas que cruzavam as zonas iluminadas do planeta. Porém, em 1.892 Giovanni abandona o seu projeto devido a falta de vista que o afetava.

Abaixo o primeiro mapa "moderno" de Marte, que foi produzido por Giovanni Schiaparelli em 1.877, no qual mostrou um sistema que chamou canali.

Mapa de Schiaparelli de Marte (1.888).

Alguns anos mais tarde, e influenciado pelas teorias deste ultimo, entra em campo um novo personagem fascinado com Marte chamado Percival Lowell, Lowell observou faixas se encontrando. Ele presumiu serem imensos canais, construído por uma civilização para irrigar as plantações do planeta. Lowell era um americano natural de Boston, de famílias abastadas. Com a sua fortuna continuou os estudos sobre Marte, construindo assim um grande observatório particular (Lowell Observatory) em Flagstaff no deserto do Arizona, de onde fotografou pela primeira vez um "canal" marciano e as calotas polares em suas diversas fases.

A esquerda um mapa marciano feito por Lowell, e a direita um mapa dos canali de Schiaparelli.

Lowell dedicou-se com mais atenção a observação da superfície de Marte, e em especial aos seus supostos canais que desenhou apaixonadamente numa superfície de papel conforme consta do seu legado histórico. Em 1.910, Percival Lowell capturou a imaginação do público com seu livro Mars As the Abode of Life. Baseado em suas observações visuais extensivas (e como nós sabemos hoje, uma imaginação ativa) Lowell pintou um retrato compelindo de um planeta perto da morte, cujos os habitantes construíram um sistema de irrigação vasto, que abrangia todo o planeta, para distribuir mais de perto a água das regiões polares aos centros da população no equador. Acreditava que as modificações nas zonas mais sombrias se deviam ao nascimento e ao desaparecimento das zonas verdes. Pensava ele que Marte caminhou para o que ele chamou naquela altura "desertismo". Lowell imaginou um Marte mais antigo que a Terra, no qual os processos biológicos tinham esterilizado Marte por completo, transformando o planeta num deserto árido e seco, semelhante ao Arizona. Pensou que as temperaturas eram um pouco mais frias e que o ar era rarefeito, mas respirável.

Apesar de sua apelação ao público, a comunidade astronômica nunca levou muito a sério os detalhes da teoria de Lowell. A falha de muitos observadores em confirmar a existência dos canais conduziu eventualmente os cientistas a suspeitar de que seus colegas tinham sido enganados em ver os canais, pela dificuldade em ver o traçado fino na terra e o seu próprio desejo de acreditar. (este mapa, abaixo, construído das imagens do orbitador da Viking no mesmo formato que Schiaparelli – o sul está acima -- mostra nenhum sinal dos canais, embora algumas características podem ter sido interpretadas como estas).

Marte visto da Viking.

Mas a idéia inspirada de Lowell de uma vida em Marte semelhante a da Terra provou ser mais durável. No alvorecer da idade do espaço, acreditava-se que Marte possuía uma atmosfera de aproximadamente um décimo da densidade da Terra, os tampões polares de gelo aumentavam e diminuíam com as estações, e uma "onda anual de escurecimento" que foi interpretado freqüentemente como o crescimento de plantas que cobria o planeta.

Lowell morreu em 1.916 iludido com os canais que o enfeitiçavam. Apesar da teoria de Lowell sobre Marte estar errada, ele deveria ser mais conhecido já que previu a teoria do planeta X além de Netuno. Clyde Taumbough descobriu Plutão ou planeta X em 1.930 no observatório que Lowell fundou.

Nos anos sessenta, as observações da Terra e as sondas espaciais marcaram o inicio do fim da crença de Lowell sobre Marte. As missões Mariner 4, 6, e 7 retornaram imagens de um superfície lunar, altamente craterado na superfície. A atmosfera encontrada era de dióxido de carbono quase puro (CO2), somente um centésimo da densidade da Terra, e os tampões polares provaram ser CO2 quase inteiramente congelado. As primeiras vistas globais de Marte, retornadas pelo orbitador da Mariner 9 em 1972, revelou que o planeta era mais complexo do que as missões anteriores tinham mostrado, com vulcões enormes, um sistema enorme de gargantas, e evidência de escoamento de água em algum ponto no passado. A onda de escurecimento foi mostrada como sendo o resultado da redistribuição sazonal da poeira pelos ventos na superfície, a composição e a densidade da atmosfera foram confirmadas, e a maioria das evidências para uma vida como na Terra em Marte foi definitivamente afastada. Mas apesar de todos estas descobertas, a possibilidade de organismos na superfície não podia ainda ser totalmente eliminada. Por esta razão, em 1976 os lander da Viking carregaram um instrumento sofisticado para procurar possíveis formas de vida na superfície de Marte.

Desde Lowell a idéia de existência de vida em Marte popularizou-se. Já no longínquo 1.898, a revista Pearson's Magazine, começou a publicar A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells (1866-1946), com ilustrações de Warwick Globe. Os marcianos e suas máquinas foram mostrados em detalhes, e a revista teve várias reimpressões. Orson Welles, em 1.939, num programa de rádio, "informou" sobre a invasão marciana em Nova Iorque, baseado no livro de Wells. Houve pânico e, dizem, até suicídios.

Nas década de 50 e 60, e mesmo agora, os filmes e a literatura de ficção científica sempre abordaram o tema dos marcianos invadindo a Terra, por causa dos problemas em seu planeta. Uma guerra catastrófica, originada por questões ambientais e até pela saúde debilitada de seus habitantes. Aqui, no planeta azul, é que estava sua salvação. Por isso os "marcianos" supostamente sempre estiveram de olho em nosso planeta. Um dos motivos de tamanha imaginação é que Marte se aproxima bastante da Terra, a cada 15 ou 17 anos, por causa das órbitas elípticas de ambos os planetas. (A distância entre eles pode chegar a 54 milhões de km, quase um terço da distância da Terra ao Sol). Em 2.003, teremos uma dessas grandes aproximações.

HISTÓRICO DAS OBSERVAÇÕES DE MARTE.

1610 - Galileu - "fases".
1636 - Fontana - primeiro desenho.
1666 - Cassini - rotação: 24h 40min.
1785/1803 - Schroeter - 230 desenhos.
1830 - Beer & Maddler (selenógrafos) - primeiro mapa com refrator de 108 mm.
1865 - Liais - explicação do colorido do disco marciano.
1867 - Proctor - rotação 24h 37min 22,7s e mapa.
1877 - Schiaparelli - areografia, mapa preciso, descoberta dos "canais" com refrator de 220mm do Observatório Brera de Milão.
1877 - Hall - descoberta dos dois satélites com o refrator de 660mm do Observatório Naval de Washington.
1877/1924 - E.M. Antoniadi - grande mapa de Marte com o uso do grande refrator de 830mm do Observatório de Meudon – França.
1877/1909 - P. Lowell - fundação do Observatório Lowell em Flagstaff – Arizona (EUA), onde os irmãos Vesto e Earl Slipher realizaram trabalhos.
1909/1926 - Coblentz & Lampland - "climatologia" de Marte nas oposições de 1922, 1924 e 1926 no Observatório Lowell.
1926 - Wright - diâmetro de Marte é diferente em fotografias com filtro vermelho e azul.
1939 - G. de Vaucouleurs - trabalhos de fotometria visual (brilhos relativos) com refrator de 200mm do Observatório Do Houga – França.
1939 - criação da "Comission de la planète Mars" na SAF (Sociedade Astronômica Francesa).
1941 - Lyot, Camichel & Dollfus - uso dos refratores de 380 e 600mm no Pic du Midi.
1949 - Kuiper - estudos da atmosfera (existência de CO2).
1952/1969 - Dolfus & Focas - mapas detalhados para a IAU (União astronômica Internacional) com refrator de 600mm do observatório Pic du Midi.

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H. G. Wells

Também na ficção científica Marte aparece de forma intensa. O episódio mais conhecido é o que deu origem ao filme Guerra dos Mundos. No dia 30 de outubro de 1.938, a rádio CBS e suas afiliadas de costa a costa nos Estados Unidos transmitiram a notícia do que seria uma invasão de marcianos. Segundo o escritor inglês H. G. Wells, centenas de marcianos teriam chegado em suas naves numa pequena cidade de New Jersey chamada Grover's Mill. Era uma brincadeira, literalmente, mas gerou um pânico gigantesco naquele país. Os méritos da adaptação, produção e direção do programa foram para sempre creditados ao então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles. Sessenta e dois anos depois, a ousadia ainda fascina, e a estória do rádio passou a ter um antes e um depois...

Guerra dos Mundos de H.G. Wells

O programa foi ao ar na véspera do Dia das Bruxas daquele ano. Usou-se somente sons especiais para dramatizar a tal invasão de marcianos sob a forma de uma cobertura jornalística. Todas as características do radio jornalismo usadas na época - as quais os ouvintes estavam habituados - se faziam presentes na reportagem. Tomadas externas, entrevistas com testemunhas, opiniões de especialistas e autoridades, gritos, a emotividade dos envolvidos, inclusive dos pretensos repórteres e comentaristas, davam a impressão de que um fato legítimo estava indo ao ar em edição extraordinária. A CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade passaram a sintonizá-lo quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se de uma brincadeira.

Quando Herbert George Wells publicou "A guerra dos mundos", em 1898, um desses mundos, o nosso, seguia em marcha batida para o grande conflito em dois capítulos que marcou o século XX. A Inglaterra, dona absoluta da Terra, tinha possessões em todos os continentes e reinava sobre 400 milhões de súditos. Mas já era um império em declínio, ameaçado por sua própria extensão em terras americanas, os EUA, e por uma desastrada aprendiz de bife (como eram conhecidos os ingleses na época: beef), a Alemanha. O país dos boches estava finalmente unificado por Bismarck e em acelerada militarização para conquistar, pela força se necessário, o que julgava sua justa partilha na rapina sistemática que a Europa praticava no resto do globo, deixando-o de fora. A guerra, pois, estava no ar; era só uma questão de tempo.

O outro dos dois mundos em conflito no livro, Marte, também entrara na moda. Quatro anos antes, chegara muito perto da Terra, e o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli, que o observara, anunciou ter descoberto canais no planeta vermelho, o que indicaria obras monumentais, e por conseguinte vida inteligente. No mesmo ano, 1894, um certo monsieur Javelle, de Nice (transformado em monsieur Lavelle, de Java, na obra), afirmou ter visto uma estranha luz em Marte, o que provocou mais teses sobre o assunto.

"A guerra dos mundos" começa exatamente com a visão desse clarão, que seria o primeiro de uma série de foguetes disparados (por canhões, como na "Viagem à lua" de Júlio Verne) de Marte, trazendo os invasores. A partir daí, a obra segue o padrão documental estabelecido por romances então em voga de antecipação da guerra na Europa, que Wells tomou como modelo. A não ser pela idéia do conflito em si, e da ameaça de aniquilação da raça humana, porém, o livro não tem pretensões simbólicas; não é, em absoluto, propaganda de guerra, o que repugnaria ao pacifista Wells; não há nada nas repugnantes figuras invasoras que as identifique de alguma forma com os alemães e sua máquina de guerra.

E não é para menos. Embora ficasse mais famoso como um dos patriarcas, com Júlio Verne, da ficção-científica, Wells foi também um notável jornalista, sociólogo e historiador, mas acima de tudo um humanista - e polêmico agitador, no campo das idéias. Com Bernard Shaw, fez parte da Sociedade dos Fabianos, socialista, em Londres, e exerceu tanta influência em vida que o seu "Outline of History" (Esboço de História), rebatizado como "Pocket History of the World", acompanhava os soldados aliados na Segunda Guerra Mundial.

Ao contrário de Verne, que tinha conhecimento das principais pesquisas científicas da época e não previu quase nada que já não existisse na cabeça e às vezes até nas pranchetas dos inventores, as principais fantasias de Wells eram simplesmente isso - fantasias. Até hoje, um século depois, não se fez qualquer contato com extraterrenos, não se inventou nenhuma máquina do tempo, nem fórmulas para tornar as pessoas invisíveis ou gigantes, para ficar apenas em algumas de suas invenções centrais (embora outra delas, a hibridização de seres humanos e animais, pareça estar-se tornando apavorantemente possível, com as técnicas de clonagem). Antevisões secundárias das obras, porém, revelaram-se acertadas, como os tanques militares, a guerra química, os bombardeios aéreos e os robôs.

Otimista por ideologia nos ensaios, Wells mostrou-se pessimista sobre o destino humano na ficção, e viveu para ver e lamentar a infausta realização de uma de suas previsões, o bombardeio nuclear de Hiroxima e Nagasaki (Créditos: Marcos Santarrita).

Nota: H. G. Wells foi um dos intelectuais chamados a redigir a Declaração Universal dos Direitos Humanos que a ONU adotou em 1948 (a última emenda é de 1957); as suas idéias sobre o assunto estão em vários textos (começando em "The Rights of Man", de 1939), coligidos em Human Rights and World Order, um livro que a H. G. Wells Society tenciona publicar em breve. É dele também obras de muito sucesso como: The Time Machine, The Island of Doctor Moreau e The First Men in the Moon.

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Ray Bradbury

Aos 12 anos, o escritor Ray Bradbury decidiu jogar fora sua enorme coleção de histórias em quadrinhos de ficção científica ao perceber que seus colegas de classe estavam começando a fazer piadas sobre seu estranho hábito. Alguns dias depois, ele começou a chorar e se perguntou: "Por que você está chorando? Quem morreu?" Ele mesmo respondeu: "Você. Você se matou. Você matou o futuro." Ao ver que havia traído a sua grande paixão, Bradbury decidiu não apenas voltar a colecionar quadrinhos, como também a escrever histórias sobre o futuro. Assim começou a obra de um dos mais importantes e consistentes autores de ficção científica da história.
Mas sua importância como escritor só foi reconhecida com a publicação, em 1950, do livro "Crônicas Marcianas", uma fantasia satírica sobre a conquista e a colonização de Marte por seres humanos, que termina em uma guerra nuclear. Três anos depois, ele estabeleceria sua reputação com "Fahrenheit 451", alegoria sobre uma sociedade totalitária do futuro, em que obras literárias são proibidas pelo governo e um grupo de rebeldes memoriza livros inteiros.

DM- Em "Crônicas Marcianas" o senhor imagina como seria o futuro no final do século XX. Como o senhor compara o futuro descrito no livro com o presente?
Bradbury -"Crônicas Marcianas" não era ficção científica, mas sim uma fantasia científica. Então fica difícil fazer uma comparação. Mas eu acbo que a corrida nuclear teve um fim melhor do que eu havia imaginado. A Europa está livre do socialismo graças ao arsenal nuclear americano.